sábado, junho 28, 2014

Lua

Em posse de sua atenção
A lua, na portela
já não sente solidão.
É a mesma lua, na viela;
que de certo, sem razão;
Sem o pudor que havia nela
Põe pra longe a escuridão.
Vê Luana, na janela,
E se ilumina de emoção.
Ergue a moça, com cautela,
Que aos poucos sai do chão.

Que beleza mais singela
Ver Luana, na janela,
com a lua em comunhão.

quarta-feira, março 05, 2014

Turbilhão

Rodopia, inquieto pensamento?
Não cansa de ser um tormento?
Então deseja-me atento?
Pois suma com o vento!
Comece e eu te invento:

Não brinque com a sorte,
Não espreite a morte,
Não tente ser forte
Não veja o corte.
Não que eu me importe...

E observe na rua:
Essa ferida nua,
Cratera da lua.
A noite recua
Expondo a sua.

A clara vitória
De sorte, trás glória.
Talvez é notória.
Me parece irrisória.
Ou mesmo aleatória.

Mergulhe em loucura
Se afaste da cura
da luz que perfura
Do beijo, doçura.
E a vida? Argh! Dura...

Tão bela e formosa;
Cruel... vaporosa;
Demente, assombrosa;
Tristeza voluptuosa.
Derrota suntuosa.

Não dura um segundo
Tão limpo e imundo
O desejo do mundo
Que toque, profundo,
Um deus vagabundo.

E vaga, distante
Num vago instante
Loucura inconstante
Num voo rasante.
Coragem! Avante!

segunda-feira, fevereiro 17, 2014

Na ferida árida
O remédio tardio.
Espera ávida.
O tédio.
A fúria abatida.

Resquício de lucidez,
Conveniência.
Estranha nudez
Da experiência
Falta de sensatez.

O histérico riso.
A coragem repentina,
Heroico improviso
A mente, a sina.
Num Instante o rodopio,
O fim, a ravina.

A morte da razão.

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

No mais, talvez menos

Noite passada:
Eras luz;
Eras trevas;
Eras, tu, amada.
Tive medo.
Hesitei.
Não fiz nada...
Hoje penso
Perturbado:
"Que roubada".

Fruto da mente,
Vaga a luz;
Vago rastro
Diferente.
Passo largo;
Larga o copo
Ferozmente.
Ganha o mundo;
Muda o tempo.
E como mente.

Seja como for;
Tudo bem.
Veja lá.
Por amor;
Algo mais.
Talvez menos.
Pela dor
Com abuso
Comedido.
Com ardor.

quarta-feira, janeiro 29, 2014

Um rio de nada

Não escrevo mais poemas
embaralhar fonemas.
Não faz nenhum sentido
pra tudo o que eu vivo.

Não vejo mais sentido
incrementar meu livro
com frases soltas, loucas
que juntas somam poucas.

De tudo o que eu escrevo
ninguém chega a vê-lo
aquilo que me prende
é o que vos ofende.

Ofensas são pequenas
e formam nossas penas
a todos nos magoam
e lágrimas escoam.

Um rio já é formado
e passa em todo lado
não há como escapar
o grande serpentear.

quarta-feira, janeiro 15, 2014

Tardes de um verão chuvoso

Que me permita dizer, a tarde cruel,
Ainda que tomado pelo imenso desgosto
Ou tenha os lábios cerrados pelo fel,
Que talvez traspareça na doçura do rosto
O brilho esquivo de seu terno olhar
Iluminado pelo intenso vermelho solar.

Pelas palavras deste incauto orador
Não se torna viva toda expressividade
Nem é claro o que se sente com ardor
Pois não passa de um triste covarde.
Tão pobre, a esperançosa palavra
Que do fracasso se torna escrava.

Ainda que mil vezes lhe repetisse,
Quer seja por capricho ou vaidade,
Tudo o que desejava e que disse,
Não atingiria toda a profundidade
Do que as palavras não podem dizer.
De que outra maneira poderia ser?

Apesar disso, os dias se consomem
Cheios de tranquila naturalidade;
E ainda é viva, no peito do homem,
Uma vaga esperança, isso é verdade.
Quem sabe, na arte, ainda exista
Satisfação para o incomum artista.

sexta-feira, janeiro 10, 2014

Final

vaga a noite;
noite vaga
no escuro
do umbral.

Baixa a voz;
cabeça baixa
doce gesto
angelical.

Ouça o silencio;
silencia a alma
no deleite
carnal.

Dorme em paz;
deita e faz
memorável
o final.

sexta-feira, janeiro 03, 2014

Tradução


Pelas minhas curvas imperfeitas suas mãos deslizavam,
Levando-me à completa perdição, ao completo devaneio.
Suas mãos traduziam meu limite, que antes nunca havia sido revelado.
Corriam em toques suaves, na mais completa brandura.

Meu mundo se misturava com os delírios do amor,
Meu sustento era a droga alucinógena da sua paixão.
O que me fazias sentir era como magia.

Seus beijos, tão doces e macios,
Passavam por cada uma de minhas dobras,
Deixavam vestígios de ternura, idolatria e paixão.

E eu, em minha vergonha, deixei-me levar pelo seu suplicante ardor,
Não podia reagir ou resistir às suas caricias.
Meus sentidos não se sujeitavam mais a mim, deixei-me dominar por seus sussurros.
Palavras mudas que me exaltavam em uma inocente malícia.

Assim, somente você desvendara o que de mais secreto e único havia em mim.
Só você até então, viste meus mistérios.
Só você me deixou leve e indefesa como uma libélula.

Você, portanto, me deixou inteiramente traduzida.

sexta-feira, novembro 29, 2013

Soneto

Banhados pelo brilho rasante
de um sol de milhões de megatons;
Dominados por um mero instante
pela nuance de melódicos sons.
Pelo rastro claro de um vetor
Desperta-me do profundo estupor.

Através da densa selva de rostos
num sutil relance de descuido
dois pares de olhos atentos
ao brilho intenso e profundo.
Toda sensibilidade feminina
Pronta a me rasgar a retina.

À beleza destes cabelos anelados
dedico esses versos desajeitados.

quarta-feira, setembro 18, 2013

Dias mais;
dias menos.
Tanto faz
mais ou menos.
Pedes paz
eu, veneno.

Queres beijos;
mais gracejos;
seus desejos.
Meus sinceros
bocejos.

Conversa vazia;
Frias palavras.
Seu rosto trazia
tristezas. Das raras.
Enquanto eu dormia,
em lagrimas estavas.

Insônia, letargia.
Demencia, narcolepsia.
Câncer, alergia.
Seus longos ataques
de histeria.

Hoje, vais.
Eu, asceno.
Tanto faz;
Corte ameno.
Tive paz.
Tu, veneno.