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sexta-feira, fevereiro 14, 2014

No mais, talvez menos

Noite passada:
Eras luz;
Eras trevas;
Eras, tu, amada.
Tive medo.
Hesitei.
Não fiz nada...
Hoje penso
Perturbado:
"Que roubada".

Fruto da mente,
Vaga a luz;
Vago rastro
Diferente.
Passo largo;
Larga o copo
Ferozmente.
Ganha o mundo;
Muda o tempo.
E como mente.

Seja como for;
Tudo bem.
Veja lá.
Por amor;
Algo mais.
Talvez menos.
Pela dor
Com abuso
Comedido.
Com ardor.

domingo, junho 09, 2013

Obsessão














Seus estranhos modos
permaneciam rudemente escondidos.
Quase um incontrolável sentimento,
gentilmente oprimido.
Zunindo alto rumo seus
ofegantes bloqueios.
Resistindo, exaustivamente.
Sem exageros, uma bomba!
Esperando letargicamente.
Obsessivamente contido.
Odiosamente reprimido
pelo orgulho.

Resista o quanto puder...

quarta-feira, janeiro 16, 2013

Ciclo IV - O Visitante

"Seja bem vinda, alma nova!
 Trazes o semblante carregado.
 Vejo que algum male lhe estorva.
 Diga-me. Por que estás assustado?

 Mas não, não me responda ainda.
 Mil perdões, meu companheiro.
 Como, no ato de sua vinda,
 nem pareço cavalheiro...

 Sente-se, faça-nos o favor.
 Sente-se e ouça o que eu digo.
 Ouça meus cantos, de alegria e dor.
 Depois cante-me os seus, bravo amigo.

'Houve já um tempo, e isso, já há muito;
 Mas se recordo, juro, ainda o sinto.
 Era dentre os homens o mais justo
 e isso, até, sem muito custo.

 Com destreza, aprendi a arte:
 Observar e julgar tudo, à parte.
 Mas veja só: da arte surge meu male;
 De sorte que este só, a muitos equivale.

 Aos poucos, de tudo o mais eu me afastava.
 Das coisas da vida, e tudo o que amava.
 E isso, até, sem sequer me dar conta.
 É o preço de quem aqui se levanta.

 Passado algum tempo desse começo,
 me dei conta desse expressivo preço.
 Foi quando tomou-me tão grande angústia;
 Imperando em minha alma todo tipo de apatia.

 Vagava cabisbaixo, totalmente desolado.
 Trazia ainda menos gente ao meu lado.
 Carregava em mim tamanha tristeza
 que demorei a ver com clareza.

 Mas eis que, acredite ou não,
 esta epifania tomou-me o coração:
 E se também essa tristeza faz parte
 e com ela, fica completa a minha arte?

 Foi quando me dei conta do que eu sou.
 Mude a arte e algo em mim já mudou!
 É ela, afinal, quem me define.
 Talvez a isso você se atine.

 Doravante, sigo ainda mais firme.
 Não há mais na dor, o que me deprime.
 E aqui estou, agora, de coragem renovada.
 Preparado para encarar orgulhoso a jornada.'

 Eis aqui, amigo, a minha amarga história.
 Suponho que você já retomou o fôlego.
 Conte-me sobre sua vida inglória.
 Quero compreender-lhe o âmago."


"Agradeço-lhe a compreensão.
 Sinto que és uma alma confiável:
 Apresenta-se a mim como um bom irmão
 aqui, onde tudo me soa tão desagradável.

 Peço perdão por lhe copiar os modos;
 Mas eu não procederia diferente.
 Defronte a todos meus medos,
 exponho-lhe minha mente:

'Ainda não há muito tempo
 desde que eu fora contente.
 Mas hoje, se olho mais atento;
 Ah! Como eu invejo toda essa gente.

 Vestia sempre a máscara do sábio.
 E como gostava de interpretar.
 Disso, embora pareça dúbio,
 eu sempre estive a par.

 Tomado por autoconfiança
 ousei-me a ir além da imagem.
 E embora nesta não houvesse mudança,
 meu íntimo encheu-se de terrível vertigem.

 Se soubesse de antemão, talvez o evitasse;
 Mas aí já era tarde para voltar atrás.
 Já me tornara vítima desse impasse.
 Invejo-te pois sabes o que faz.

 Se soubesse como tentei desistir
 talvez sequer seria-me tão atencioso.
 Porém como eu agiria de forma a me convir
 Se esquecer-me do que eu passei é tão penoso?

 Responda-me se possível, meu estimado amigo:
 Como se convive com tão grande tristeza?
 Enlouquece-me o que ela faz comigo.
 Suportá-la me parece uma proeza.'"


"Em poucas palavras ditas já vejo
 como lhe vem massacrando, seu íntimo.
 Acredite. Embora ainda não seja seu desejo
 seu gosto pela arte ainda se tornará legítimo.

 Até lá, sinto informar-lhe, mas nada posso fazer.
 Nada além de observar a sua escalada exaustiva.
 Supera essa necessidade que tens de prazer.
 É assim que, aqui, algum gozo se cultiva.

 Dou-lhe essas palavras como presente.
 Não me decepcione e cultive-as com zelo.
 Atente-se com empenho, e explore o que sente.
 E não existe no mundo quem, por ti, possa fazê-lo.

 Entenda isso desde já. Eu creio que virá a ser útil:
 Supere primeiro os medos que você tem carregado.
 E faça antes que te tornem o pensamento vil.
 Antes que tornem-se um fardo mais pesado.

 Ademais, cabe a ti descobrir o restante.
 Se sabes que não pode voltar, seja bem-vindo.
 Vai encontrar-se consigo mesmo bem logo, adiante.
 Agora não se demore mais. Aqui me despeço. Vamos indo."

quarta-feira, novembro 14, 2012

Estrelas


Estive a noite a olhar estrelas.
Mas de forma um tanto peculiar,
uma atrai-me mais que as outras.

Não possui um brilho vulgar.
Pulsa tão calma e lentamente,
que me parece querer se apagar.

No seu momento ascendente,
destaca-se de forma magistral
afirmando toda sua força imponente.

E em seguida, de forma tão natural,
tendo demonstrado todo resplendor,
volta humilde pelo umbral.

Declina ao torpor
com igual maestria e beleza.
Impõe e segue o seu próprio rigor.

Invejosas de sua proeza,
tentam ofuscar-lhe, as outras.
Estrelas sem a mesma nobreza.

Caem sobre essa como feras.
Mas todo esforço enfim, é vão.
Minha estrela brilha por eras.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Monocromático

Depois de toda essa filosofia
E toda ética, pregada às ovelhas
Por seus pastores verborrágicos:
.
Suspirando meu velho blues
eu sou só mais um cidadão;
Enquanto todos os outros
repetem o mesmo refrão
.
A vida é bela
em toda a sua feiura;
E do meio do lixo
exprime seu perfume e doçura.
.
A queda da cama
é só o primeiro passo;
E é preciso mais empenho
se o objetivo está além do espaço.
.
Mastigue as correntes
entre seus dentes de platina;
O sabor da liberdade
está além daquela esquina.
.
No movimento incompleto
de dois corpos que se arrastam;
Os grilhões são muito leves
pra que percebam, quem os usam.
.
Sinta o frio devastador
Dos corações em tempo de metrônomo
Dentro das salas climatizadas.
.
Ouça a sinfonia em si bemol
Na marcha fúnebre pelas ruas
Celebrando o início de outra era.
.
Observe o brilho monocromático
De uma liberdade abortada
Em mil cores de alta definição.

domingo, novembro 06, 2011

Atraso do Tempo

Tempos de glória

Tempos de dor.

Tempos de guerra

Tempos de amor.

.

Tempo seco

Tempo molhado.

Tempo frio

Tempo esquentado.

.

Tempo passado

E tempo futuro.

Tempos de luz

E tempo obscuro.

.

Tempo na hora

Na hora do tempo.

Tempo agora

À proa do vento.

.

É tempo de gente

Que aposta no azar.

Tempo de falência

No vil cambiar.

.

O tempo mecânico

Como marca o relógio;

E o tempo sensível

Como a espera e o ócio.

.

É o tempo à tempo;

No tempo do tempo.

.

Mas como se sairia o tempo contra o tempo?

Tornar-se-ia absoluto ou se perderia no próprio atraso?